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Como elaborar o orçamento de um projeto social para editais: custos, memória de cálculo e modelo prático

ONG Orpas

Mar 16, 2023

Aprenda a elaborar o orçamento de um projeto social, calcular equipe, encargos, custos indiretos, contrapartidas e fluxo de caixa para editais.

Um orçamento pode parecer tecnicamente correto e, ainda assim, revelar que o projeto não foi suficientemente planejado.


Isso acontece quando os valores não correspondem às atividades, a equipe está subdimensionada, os encargos foram esquecidos, as despesas administrativas aparecem como um percentual genérico ou o cronograma exige recursos que só chegarão meses depois.


Também acontece o contrário.


Uma proposta social pode ter uma metodologia consistente, um diagnóstico relevante e objetivos bem definidos, mas perder credibilidade porque seu orçamento não explica quanto cada atividade custa, como os valores foram calculados ou por que determinada despesa é necessária.


O orçamento não é um anexo financeiro elaborado depois do projeto. Ele é a tradução da metodologia em recursos.


Se o projeto realizará oficinas, o orçamento precisa revelar quem as conduzirá, quantas horas serão trabalhadas, quais materiais serão utilizados, onde acontecerão, como os participantes chegarão e que estrutura será necessária.


Se haverá monitoramento, algum recurso precisa financiar a coleta, organização e análise das informações.


Se a organização pretende prestar contas adequadamente, precisa considerar o

trabalho administrativo, contábil e financeiro relacionado ao projeto, sempre de acordo com as regras da oportunidade.


Um orçamento profissional responde a cinco perguntas:


  1. O que será comprado, contratado ou remunerado?

  2. Por que essa despesa é necessária?

  3. Como o valor foi calculado?

  4. Quando o recurso será utilizado?

  5. O edital permite essa despesa?


Este guia mostra como construir essas respostas.


O que é o orçamento de um projeto social?

O orçamento de um projeto social é a previsão detalhada dos recursos financeiros necessários para executar as atividades, entregar os produtos e alcançar os resultados propostos.


Ele pode incluir, conforme o projeto e as regras do financiador:


  • remuneração da equipe;

  • encargos sociais e trabalhistas;

  • serviços especializados;

  • materiais de consumo;

  • equipamentos;

  • locação de espaços;

  • transporte;

  • alimentação;

  • comunicação;

  • acessibilidade;

  • tecnologia;

  • monitoramento;

  • avaliação;

  • contabilidade;

  • custos administrativos;

  • tributos;

  • despesas logísticas.


Um bom orçamento não apresenta apenas um valor global. Ele demonstra a composição desse valor.


Em vez de informar:

Materiais: R$ 24 mil.

O projeto deveria explicar algo como:

120 kits pedagógicos × R$ 200 por unidade = R$ 24 mil.

Essa explicação é chamada, em muitos processos, de memória de cálculo.


Orçamento, plano de aplicação e cronograma de desembolso são a mesma coisa?

Não.

Esses documentos estão relacionados, mas cumprem funções diferentes.


Orçamento

Apresenta as despesas previstas e sua composição.


Plano de aplicação

Organiza como os recursos serão aplicados, geralmente por categorias, metas, etapas, naturezas de despesa ou rubricas definidas pelo financiador.


Cronograma de desembolso

Mostra quando os recursos precisarão estar disponíveis ou quando as parcelas serão liberadas.


Fluxo de caixa do projeto

Mostra a entrada e a saída efetiva de dinheiro ao longo do tempo.

Essa diferença é fundamental.


Um projeto pode custar R$ 300 mil no total e ainda assim enfrentar falta de caixa no terceiro mês porque:


  • o financiador libera recursos por parcelas;

  • determinadas despesas precisam ser pagas antecipadamente;

  • o modelo funciona por reembolso;

  • houve atraso na liberação;

  • os custos se concentram no começo da execução.


Portanto, conhecer o custo total não basta.

É necessário compreender quando cada custo acontecerá e quando o dinheiro entrará.


O orçamento começa na metodologia, não na planilha

Antes de inserir números, transforme a metodologia em um mapa de recursos.

Imagine o seguinte trecho de projeto:

Serão formadas quatro turmas de 30 jovens. Cada turma participará de 16 oficinas presenciais de duas horas. O projeto também oferecerá encontros com profissionais, apoio para transporte e acompanhamento dos participantes.

Sobre as oficinas

  • Quantos educadores serão necessários?

  • Quantas horas de preparação serão remuneradas?

  • Haverá deslocamento?

  • Serão necessários equipamentos?

  • O espaço será cedido ou alugado?

  • Quais materiais serão utilizados?

  • Haverá alimentação?

  • Existirão medidas de acessibilidade?


Sobre a gestão

  • Quem coordenará o cronograma?

  • Quem contratará fornecedores?

  • Quem acompanhará despesas?

  • Quem produzirá relatórios?

  • Quem prestará contas?

  • Quem monitorará os indicadores?


Sobre os participantes

  • Haverá transporte?

  • Alimentação?

  • Material individual?

  • Equipamento de proteção?

  • Bolsa, auxílio ou premiação permitida?

  • Apoio para pessoas com deficiência?


Cada resposta pode gerar uma linha orçamentária.


A sequência correta é:

atividade → recurso necessário → quantidade → custo unitário → custo total

Não:

valor máximo do edital → distribuição aleatória entre rubricas

Antes de calcular: leia todas as regras do edital

Não existe uma lista universal de despesas permitidas para todos os projetos sociais.

Um mesmo item pode ser:


  • permitido em um edital;

  • permitido com limite percentual em outro;

  • aceito apenas mediante justificativa;

  • completamente proibido em uma terceira oportunidade.


Antes de elaborar o orçamento, procure no regulamento:


  • despesas elegíveis;

  • despesas não elegíveis;

  • teto por projeto;

  • valor mínimo;

  • limites por categoria;

  • duração máxima;

  • regras para equipe;

  • exigências de contrapartida;

  • permissão para equipamentos;

  • regras para custos administrativos;

  • período de realização das despesas;

  • exigências de pesquisa de preços;

  • necessidade de cotações;

  • possibilidade de remanejamento;

  • tratamento de tributos;

  • forma de prestação de contas.


Uma boa prática é criar uma tabela interna.

Questão

Regra do edital

Impacto no orçamento

Custos administrativos

Permitidos até determinado limite

Detalhar despesas necessárias

Equipamentos

Permitidos com justificativa

Demonstrar vínculo com o objeto

Obras

Não permitidas

Excluir reformas estruturais

Contrapartida

Exigida em bens e serviços

Mensurar economicamente

Equipe própria

Permitida

Calcular dedicação proporcional

Transporte

Permitido para participantes

Definir quantidade e memória de cálculo

Essa leitura evita que a organização desenvolva um orçamento inteiro sobre uma premissa proibida.


Como as regras variam entre editais privados, parcerias públicas e leis de incentivo?

Essa distinção precisa estar clara.


Editais de fundações e empresas

Financiadores privados possuem autonomia para definir suas próprias condições.

Uma fundação pode permitir:


  • remuneração da equipe;

  • desenvolvimento institucional;

  • tecnologia;

  • despesas administrativas;

  • aluguel;

  • custos indiretos.


Outra pode financiar apenas atividades diretamente relacionadas ao projeto.

Há também financiadores que trabalham com apoio institucional, permitindo maior flexibilidade para que a organização distribua os recursos conforme suas necessidades estratégicas.


Em qualquer caso, prevalece o regulamento, o contrato e o orçamento aprovado.


Parcerias regidas pelo MROSC

A Lei nº 13.019/2014, conhecida como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, determina que o plano de trabalho contenha a previsão de receitas e despesas necessárias à execução da parceria.


O artigo 46 permite, entre outras despesas previstas e aprovadas no plano de trabalho:


  • remuneração da equipe encarregada da execução;

  • obrigações sociais e trabalhistas relacionadas;

  • diárias para deslocamento, hospedagem e alimentação;

  • aquisição de equipamentos e materiais permanentes essenciais;

  • custos indiretos necessários à execução.


No âmbito federal, o Decreto nº 8.726/2016 cita como exemplos de custos indiretos despesas com internet, transporte, aluguel, telefone, água, energia, serviços contábeis e assessoria jurídica.


Isso não significa que qualquer despesa será automaticamente aceita.


Ela precisa:


  • estar relacionada ao objeto;

  • ser necessária;

  • constar no plano de trabalho;

  • respeitar o edital e a regulamentação aplicável;

  • possuir valor compatível;

  • ser adequadamente comprovada.


Convênios e contratos de repasse da União

Alguns instrumentos operados pelo Transferegov não são termos de fomento ou colaboração do MROSC. Podem estar sujeitos a regulamentações próprias.


Na versão atualizada da Portaria Conjunta MGI/MF/CGU nº 33/2023, aplicável aos instrumentos por ela regulados, o plano de trabalho deve incluir cronograma físico, cronograma de desembolso e plano de aplicação detalhado.


As despesas devem ser necessárias, suficientes e compatíveis com os valores de mercado da região de execução. Para entidades privadas sem fins lucrativos abrangidas pela portaria, despesas administrativas podem ser previstas até o limite de 15% do valor do objeto, desde que sejam necessárias e proporcionais. A norma também admite despesas com pessoal próprio, tributos, FGTS, férias, décimo terceiro e encargos, quando atendidas suas condições.


Uma alteração de 10 de julho de 2026 reforçou que não devem ser aceitos planos de trabalho com itens genéricos que impeçam a identificação clara do bem, obra ou serviço.


Essa regra não deve ser generalizada para todos os editais privados ou todas as parcerias públicas. Ela ilustra, contudo, uma tendência importante:

Rubricas genéricas são cada vez menos defensáveis.

Projetos da Lei Rouanet

Na Lei Federal de Incentivo à Cultura, as propostas apresentadas ao Salic devem conter orçamento analítico, com a descrição dos itens necessários, etapas e fontes de recursos.


A Instrução Normativa MinC nº 29/2026 define orçamento analítico como aquele que apresenta composições de custos unitários para os itens da planilha.


Na regulamentação vigente em julho de 2026:


  • custos de administração estão limitados a 15% do valor do projeto;

  • a remuneração pela captação está limitada a 10% do projeto e ao teto de R$ 150 mil;

  • custos de acessibilidade, comunicação e divulgação acessíveis possuem limite próprio de até 20%;

  • existem regras específicas para remuneração do proponente, fornecedores, cachês e outras categorias.


Esses limites pertencem especificamente ao mecanismo e à regulamentação citada.

Não utilize automaticamente os mesmos percentuais em projetos sociais, esportivos, ambientais ou em editais privados.


Taxa de administração e custos administrativos não são necessariamente a mesma coisa

Essa diferença costuma provocar confusão.


Uma taxa de administração pode significar a inclusão de um percentual genérico sobre o projeto, sem detalhamento das despesas que serão cobertas.


Por exemplo:

Taxa administrativa: 10% — R$ 30 mil.

Já os custos administrativos podem ser despesas concretas, necessárias e identificáveis, como:


  • parcela proporcional do aluguel;

  • internet;

  • energia;

  • contabilidade;

  • gestão financeira;

  • pessoal administrativo;

  • sistema de gestão;

  • assessoria jurídica relacionada;

  • material de escritório.


Algumas normas proíbem taxas genéricas, mas permitem despesas administrativas devidamente detalhadas.


Na regulamentação atual da Lei Rouanet, por exemplo, despesas a título de “taxa de administração ou similar” são vedadas, enquanto custos administrativos detalhados são admitidos dentro do limite aplicável.


A lição prática é:

Não acrescente automaticamente um percentual chamado “administração”.

Identifique o que a organização realmente precisará pagar e verifique se cada despesa é permitida.


Custos diretos e custos indiretos: qual é a diferença?

A definição pode variar conforme o financiador, mas uma distinção prática ajuda.


Custos diretos

São aqueles facilmente associados a uma atividade, entrega ou projeto específico.

Exemplos:


  • educador contratado exclusivamente para as oficinas;

  • materiais distribuídos aos participantes;

  • aluguel do espaço onde acontecerá o evento;

  • transporte para uma visita técnica;

  • intérprete de Libras de uma atividade;

  • avaliação externa do projeto.


Custos indiretos

São necessários para a execução, mas atendem simultaneamente a diferentes atividades ou à estrutura da organização.

Exemplos:

  • aluguel da sede;

  • energia;

  • internet;

  • contabilidade institucional;

  • sistema financeiro;

  • equipe administrativa compartilhada;

  • segurança digital;

  • assessoria jurídica recorrente.


Custos indiretos não são despesas irrelevantes.


Sem eles, o projeto talvez não consiga contratar, pagar, documentar, monitorar ou prestar contas.


O problema não é sua existência. O problema surge quando eles:


  • não são permitidos;

  • não estão detalhados;

  • não possuem memória de cálculo;

  • são cobrados integralmente de vários projetos;

  • não têm relação com a execução;

  • são confundidos com uma taxa arbitrária.


Como organizar as categorias do orçamento

O edital pode impor categorias próprias. Quando isso não ocorrer, as seguintes divisões ajudam a estruturar a análise.


1. Equipe do projeto

Pode incluir:


  • coordenação;

  • educadores;

  • assistentes sociais;

  • psicólogos;

  • mobilizadores;

  • profissionais de monitoramento;

  • técnicos;

  • equipe administrativa;

  • profissionais de comunicação;

  • especialistas.


Cada linha deveria esclarecer:


  • função;

  • quantidade de profissionais;

  • forma de contratação;

  • número de meses ou horas;

  • dedicação ao projeto;

  • valor unitário;

  • encargos aplicáveis;

  • valor total.


Exemplo

Função

Quantidade

Período

Valor mensal

Total

Coordenação

1

12 meses

R$ 6.000

R$ 72.000

Educadores

2

4 meses

R$ 3.500

R$ 28.000

Assistente de monitoramento

1

6 meses

R$ 2.000

R$ 12.000

Esses valores são hipotéticos e não representam referência de mercado.


2. Encargos trabalhistas e sociais

Quando a contratação envolve vínculo empregatício, o custo do profissional não se limita ao salário mensal.


Podem existir, conforme o caso:


  • contribuições patronais;

  • FGTS;

  • férias;

  • adicional de férias;

  • décimo terceiro;

  • benefícios;

  • vale-transporte;

  • verbas rescisórias proporcionais;

  • obrigações previstas em acordos ou convenções coletivas.


A legislação e os custos aplicáveis dependem da relação contratual, do enquadramento da organização e da categoria profissional.


Não utilize um percentual genérico retirado de outro projeto. Peça à contabilidade uma memória de cálculo compatível com a situação real.


Nos instrumentos federais regulados pela Portaria Conjunta nº 33/2023, a remuneração da equipe pode incluir tributos, FGTS, férias, décimo terceiro, verbas rescisórias e outros encargos, desde que os valores correspondam às atividades, à qualificação, ao mercado e ao tempo efetivamente dedicado.


3. Prestadores de serviços

Podem incluir:


  • consultores;

  • facilitadores;

  • designers;

  • desenvolvedores;

  • avaliadores;

  • auditores;

  • fotógrafos;

  • intérpretes;

  • fornecedores de alimentação;

  • empresas de transporte;

  • produtoras.


Evite a rubrica genérica:

Serviços de terceiros: R$ 50 mil.

Prefira:

Seis facilitadores especializados × R$ 3 mil por ciclo formativo = R$ 18 mil.

A contratação como pessoa jurídica ou autônomo deve corresponder à realidade da prestação do serviço e às regras civis, tributárias e trabalhistas aplicáveis.


Não utilize contratos de prestação de serviços apenas para ocultar uma relação que, na prática, possua características de vínculo empregatício.


Questões específicas devem ser avaliadas por profissionais jurídicos e contábeis.


4. Materiais de consumo

São itens consumidos ou distribuídos durante a execução.


Exemplos:


  • material pedagógico;

  • material de escritório;

  • alimentos;

  • produtos de higiene;

  • material esportivo de consumo;

  • insumos para oficinas;

  • impressões;

  • crachás;

  • embalagens.


Detalhe composição e quantidade.


Fraco

Material de oficina: R$ 20 mil.

Melhor

100 kits contendo caderno, canetas, pasta e material didático × R$ 200 = R$ 20 mil.

Quando os itens do kit possuem valores relevantes, pode ser necessário detalhar cada componente.


5. Equipamentos e bens permanentes


Exemplos:


  • computadores;

  • projetores;

  • mobiliário;

  • máquinas;

  • ferramentas;

  • equipamentos audiovisuais;

  • instrumentos musicais.


Antes de incluir, verifique:


  • o edital permite aquisição?

  • a compra é mais econômica do que a locação?

  • o equipamento é essencial?

  • quem será seu proprietário depois do projeto?

  • como será utilizado e mantido?

  • haverá seguro?

  • é necessária cotação específica?

  • existem regras para bens remanescentes?


Não compre um equipamento apenas porque “seria útil para a ONG”. Explique por que ele é necessário para a entrega do objeto financiado.


6. Transporte, viagens e logística


Podem envolver:


  • transporte dos participantes;

  • passagens;

  • combustível;

  • locação de veículos;

  • hospedagem;

  • diárias;

  • fretes;

  • transporte de equipamentos.


A memória de cálculo pode considerar:


  • número de viagens;

  • número de pessoas;

  • origem e destino;

  • valor por trecho;

  • número de dias;

  • volume transportado.


Exemplo

Transporte de 30 participantes para quatro visitas técnicas: quatro viagens × R$ 1.500 = R$ 6 mil.

Evite colocar um valor anual de transporte sem explicar a operação.


7. Alimentação

A alimentação pode ser necessária para:


  • participantes;

  • equipe em atividade externa;

  • eventos;

  • formações de longa duração;

  • mobilizações comunitárias.


Calcule:

número de pessoas × número de refeições × valor por refeição

Exemplo:

120 participantes × quatro encontros × R$ 25 = R$ 12 mil.

Confirme se o edital permite essa despesa e em quais circunstâncias.


8. Comunicação

Pode incluir:


  • identidade visual;

  • materiais gráficos;

  • produção de conteúdo;

  • fotografia;

  • vídeo;

  • assessoria de imprensa;

  • redes sociais;

  • mídia;

  • comunicação comunitária;

  • aplicação das marcas;

  • relatório final.


Comunicação não deveria ser incluída apenas para divulgar o financiador.


Ela pode ter funções relacionadas a:


  • mobilização do público;

  • transparência;

  • prestação de contas;

  • compartilhamento de resultados;

  • incidência;

  • acesso às atividades;

  • disseminação da metodologia.


9. Acessibilidade

A acessibilidade precisa ser pensada no desenho do projeto e no orçamento. Dependendo da iniciativa, pode envolver:


  • intérprete de Libras;

  • legendagem;

  • audiodescrição;

  • materiais em formatos acessíveis;

  • consultoria especializada;

  • transporte adaptado;

  • rampas temporárias;

  • sinalização;

  • apoio individual;

  • tecnologia assistiva.


Não trate acessibilidade como um item decorativo inserido ao final da proposta.

Ela pode alterar local, metodologia, contratação, comunicação e logística.


10. Monitoramento e avaliação

Pode incluir:


  • profissional responsável;

  • sistema de coleta de dados;

  • formulários;

  • licenças de software;

  • pesquisa de linha de base;

  • avaliação inicial e final;

  • consultoria externa;

  • análise dos resultados;

  • relatório.


Se o projeto promete indicadores complexos, precisa possuir recursos para medi-los.

Link interno planejado: Indicadores para projetos sociais: como medir atividades, resultados e impacto.

11. Custos administrativos e indiretos

Podem envolver:


  • parcela do aluguel;

  • energia;

  • internet;

  • contabilidade;

  • sistema financeiro;

  • material administrativo;

  • apoio jurídico;

  • equipe compartilhada.


Eles devem ser:


  • permitidos;

  • necessários;

  • proporcionais;

  • detalhados;

  • comprováveis;

  • calculados sem duplicidade.


12. Tributos, taxas e tarifas

O orçamento deve considerar o custo total da contratação. Por exemplo, um serviço de R$ 5 mil pode envolver:


  • valor da nota fiscal;

  • tributos retidos;

  • impostos de responsabilidade da organização;

  • custos bancários permitidos;

  • encargos relacionados.


Não confunda o valor líquido recebido pelo prestador com o custo total do projeto.

A análise deve ser feita com apoio contábil.


O que é memória de cálculo?

Memória de cálculo é a explicação utilizada para chegar ao valor de cada rubrica.

A fórmula básica costuma ser:

quantidade × valor unitário × período = valor total

Exemplo de equipe

Um coordenador × R$ 6 mil por mês × 12 meses = R$ 72 mil.

Exemplo de oficinas

Dois educadores × R$ 3.500 por mês × quatro meses = R$ 28 mil.

Exemplo de kits

120 kits × R$ 200 por unidade = R$ 24 mil.

Exemplo de locação

Locação de equipamentos × R$ 2 mil por mês × seis meses = R$ 12 mil.

Uma memória de cálculo bem construída permite ao avaliador verificar:


  • quantidade;

  • unidade;

  • duração;

  • valor unitário;

  • coerência com as atividades;

  • coerência com o cronograma.


Como calcular o rateio de uma despesa compartilhada

Imagine que a organização pague R$ 6 mil mensais de aluguel e possua quatro projetos em funcionamento.


Não é correto cobrar os R$ 6 mil integrais de cada financiador.


A organização precisa estabelecer um método de rateio coerente. Pode utilizar, conforme a natureza da despesa:


  • área física utilizada;

  • número de profissionais;

  • horas de dedicação;

  • quantidade de participantes;

  • tempo de utilização;

  • participação do projeto no orçamento institucional;

  • outro critério justificável.


Exemplo por área utilizada

O projeto utiliza 25% da área útil da sede durante 12 meses.

R$ 6.000 × 25% × 12 meses = R$ 18.000.

Exemplo por dedicação de equipe

Uma profissional recebe R$ 4.800 mensais e dedica 37,5% de sua jornada ao projeto durante dez meses.

R$ 4.800 × 37,5% × 10 meses = R$ 18.000.

O critério precisa ser:


  • objetivo;

  • verificável;

  • aplicado consistentemente;

  • documentado;

  • livre de dupla cobrança.


Na Portaria Conjunta nº 33/2023, quando uma despesa é custeada pelo instrumento e por outras fontes, deve ser inserida memória de cálculo do rateio, sem duplicidade ou sobreposição.


A mesma lógica de evitar sobreposição é uma boa prática para qualquer organização, inclusive em financiamentos privados.


Como fazer pesquisa de preços

A pesquisa de preços demonstra que os valores utilizados são plausíveis. Ela também protege a organização contra:


  • subestimação;

  • superfaturamento;

  • favorecimento;

  • contratações inviáveis;

  • questionamentos futuros.


As fontes podem incluir, conforme as regras:


  • propostas de fornecedores;

  • preços publicados em sites;

  • tabelas profissionais;

  • convenções coletivas;

  • contratos anteriores atualizados;

  • bases públicas;

  • catálogos;

  • referências de mercado;

  • valores de serviços semelhantes.


Três cotações são sempre obrigatórias?

Não existe uma regra universal aplicável a todo edital para ONG. Muitos financiadores exigem três cotações. Outros utilizam metodologias diferentes.


Algumas oportunidades pedem cotações apenas para itens acima de determinado valor. Outras exigem pesquisa somente na contratação, não na candidatura.


Nos instrumentos abrangidos pela Portaria Conjunta nº 33/2023, a regra central é que as despesas sejam necessárias, suficientes e compatíveis com o valor de mercado regional. O instrumento ou o concedente pode estabelecer procedimentos adicionais.

Portanto, leia o edital.


O que guardar na pesquisa de preços?


Mantenha:


  • nome do fornecedor;

  • CNPJ ou CPF, quando aplicável;

  • data da consulta;

  • descrição do item;

  • quantidade;

  • valor unitário;

  • validade da proposta;

  • condições de pagamento;

  • frete;

  • tributos;

  • endereço eletrônico;

  • captura ou arquivo da referência.


Um preço sem data pode perder valor como evidência.


Como escolher entre média, mediana e menor preço?

Isso depende das regras do financiador e da qualidade da amostra.


Média

Soma dos valores dividida pela quantidade de referências.

Pode ser distorcida por um preço muito alto ou muito baixo.


Mediana

Valor central após ordenar os preços.

Pode ser útil quando existem valores extremos.


Menor preço

Pode parecer econômico, mas nem sempre representa a solução adequada.

O fornecedor mais barato pode:


  • não possuir qualidade suficiente;

  • cobrar frete adicional;

  • não atender ao território;

  • não possuir capacidade;

  • oferecer especificação diferente;

  • não cumprir o prazo.


Economicidade não significa sempre comprar o item nominalmente mais barato.

Significa buscar uma relação justificável entre preço, qualidade, adequação e resultado.


Como orçar equipe própria da ONG

A equipe própria pode trabalhar em um projeto financiado, quando as regras permitem.

A organização precisa calcular:


  • remuneração mensal;

  • percentual de dedicação;

  • número de meses;

  • encargos proporcionais;

  • benefícios aplicáveis;

  • responsabilidades no projeto.


Exemplo

Uma coordenadora recebe R$ 8 mil mensais e dedicará metade de sua jornada ao projeto durante dez meses.

R$ 8.000 × 50% × 10 meses = R$ 40.000.

Além disso, devem ser calculados os encargos proporcionais correspondentes, conforme orientação contábil.


Não é correto:


  • cobrar 100% do salário em dois projetos simultaneamente;

  • imputar ao projeto uma dedicação que não ocorreu;

  • ocultar a forma de cálculo;

  • deixar de considerar encargos;

  • cobrar tempo fora do período permitido.


Como trabalhar com voluntários no orçamento

O voluntariado pode representar uma contribuição relevante, mas não deve ser usado para esconder trabalho que deveria ser remunerado.


A Lei nº 9.608/1998 estabelece que o serviço voluntário deve ser exercido mediante termo de adesão entre a entidade e a pessoa voluntária, no qual constem o objeto e as condições da atividade.


Quando o edital permite contabilizar horas voluntárias como contrapartida, a organização precisa definir:


  • quantidade de pessoas;

  • número de horas;

  • atividade;

  • valor de referência;

  • método de valoração;

  • forma de comprovação.


Não aumente artificialmente o valor do trabalho voluntário apenas para apresentar uma contrapartida maior.


O que é contrapartida?

Contrapartida é a contribuição oferecida pela própria organização ou por parceiros para viabilizar o projeto.


Ela pode assumir formas diferentes:


  • recurso financeiro;

  • espaço;

  • equipamentos;

  • horas de equipe;

  • trabalho voluntário;

  • serviços;

  • transporte;

  • materiais;

  • tecnologia.


As regras variam.


No MROSC, a Lei nº 13.019/2014 estabelece que não será exigida contrapartida financeira como requisito para a celebração da parceria, mas admite a exigência de contrapartida em bens e serviços cuja expressão monetária seja identificada no instrumento.


Essa regra pertence às parcerias abrangidas pela lei.


Editais privados e outros instrumentos podem trabalhar com contrapartidas financeiras de maneira diferente.


Como calcular contrapartida em bens e serviços

Imagine que uma escola parceira cederá gratuitamente uma sala que normalmente custa R$ 200 por turno.


O projeto utilizará a sala por 30 turnos.

30 turnos × R$ 200 = R$ 6.000 em contrapartida.

Outro exemplo:


Uma profissional voluntária prestará 40 horas de consultoria, cujo valor de referência justificável é R$ 150 por hora.

40 horas × R$ 150 = R$ 6.000.

A organização deve guardar evidências da valoração, do compromisso e da execução.


Por que não é recomendável criar uma rubrica genérica de contingência?

Uma reserva de contingência parece prudente, mas muitos editais não permitem esse tipo de linha genérica.


O financiador quer saber para que o dinheiro será utilizado.


Em vez de acrescentar:

Imprevistos: R$ 20 mil.

A organização deveria:


  • utilizar preços realistas;

  • considerar a época da execução;

  • mapear riscos;

  • verificar possibilidade de remanejamento;

  • entender como funcionam readequações;

  • incluir despesas concretas previsíveis;

  • negociar alterações quando necessário.


Não esconda margem de segurança dentro de preços artificialmente inflados.

Isso prejudica a transparência.


Como considerar inflação e variações de preço

Um orçamento elaborado em julho pode ser executado apenas no ano seguinte.

Nesse intervalo, podem ocorrer mudanças em:


  • salários;

  • passagens;

  • alimentação;

  • aluguel;

  • combustível;

  • materiais;

  • câmbio;

  • serviços.


A organização pode:


  • utilizar propostas com validade e projeções justificadas;

  • consultar séries históricas;

  • considerar reajustes contratuais permitidos;

  • atualizar pesquisas antes da contratação;

  • prever datas realistas;

  • verificar as regras de readequação;

  • evitar preços excessivamente apertados.


O método precisa ser transparente.


Como elaborar o cronograma de desembolso

Depois de calcular o custo total, distribua as despesas ao longo do tempo.

Considere:


  • contratação da equipe;

  • preparação;

  • compra de materiais;

  • execução;

  • eventos;

  • avaliação;

  • encerramento;

  • prestação de contas.


Exemplo simplificado

Período

Principais despesas

Valor

Meses 1 a 3

Planejamento, contratação, materiais e mobilização

R$ 72.000

Meses 4 a 6

Oficinas, equipe, transporte e acompanhamento

R$ 67.000

Meses 7 a 9

Continuidade das atividades e avaliação

R$ 48.000

Meses 10 a 12

Encerramento, comunicação e prestação de contas

R$ 30.000

Total


R$ 217.000

Os valores são ilustrativos.

O cronograma real deve corresponder às linhas detalhadas do orçamento.


O que analisar quando o financiador paga por reembolso

Em um projeto por reembolso, a organização primeiro realiza a despesa e depois solicita o ressarcimento.


Isso pode gerar uma necessidade relevante de capital de giro.


Pergunte:


  • Quanto tempo leva o reembolso?

  • Qual o valor máximo que precisaremos adiantar?

  • A organização possui caixa?

  • É permitido utilizar outra fonte temporariamente?

  • Como será feita a segregação contábil?

  • Existe risco de a despesa ser recusada?

  • Quais documentos serão exigidos?


Uma organização pode aprovar um projeto rentável no papel e ainda assim não possuir caixa para executá-lo.


Modelo completo e simplificado de orçamento de projeto social

A seguir, retomamos o projeto hipotético Jovens em Movimento, apresentado no artigo anterior.


O projeto atenderá 120 jovens por meio de oficinas de preparação profissional, competências digitais e conexão com oportunidades.


Orçamento resumido

Categoria

Valor

Coordenação do projeto

R$ 72.000

Educadores

R$ 28.000

Assistente de monitoramento

R$ 12.000

Encargos e provisões estimados

R$ 7.000

Facilitadores especializados

R$ 18.000

Materiais pedagógicos

R$ 24.000

Apoio logístico aos participantes

R$ 14.000

Locação de equipamentos e espaços

R$ 12.000

Monitoramento e avaliação

R$ 10.000

Comunicação e acessibilidade

R$ 10.000

Custos administrativos rateados

R$ 20.000

Total

R$ 217.000

Todos os valores deste exemplo são hipotéticos.


Memória de cálculo

Item

Memória

Total

Coordenação

1 profissional × R$ 6.000 × 12 meses

R$ 72.000

Educadores

2 profissionais × R$ 3.500 × 4 meses

R$ 28.000

Assistente de monitoramento

1 profissional × R$ 2.000 × 6 meses

R$ 12.000

Encargos e provisões

Estimativa contábil específica do exemplo

R$ 7.000

Facilitadores

6 serviços × R$ 3.000

R$ 18.000

Materiais

120 kits × R$ 200

R$ 24.000

Apoio logístico

Transporte e alimentação conforme calendário

R$ 14.000

Espaços e equipamentos

R$ 2.000 × 6 meses

R$ 12.000

Monitoramento

Um pacote de serviços e ferramentas

R$ 10.000

Comunicação e acessibilidade

Serviços e recursos detalhados em subplanilha

R$ 10.000

Administração rateada

R$ 2.000 × 10 meses

R$ 20.000

Total


R$ 217.000

Algumas linhas ainda precisariam ser detalhadas em uma candidatura real.

“Apoio logístico”, por exemplo, provavelmente deveria ser dividido entre transporte e alimentação.


“Comunicação e acessibilidade” também deveria informar exatamente quais entregas serão contratadas.


O nível de detalhamento dependerá do formulário.


O que esse orçamento revela sobre o projeto?

O orçamento permite fazer perguntas estratégicas.


A coordenação está superdimensionada?

Ela representa R$ 72 mil de um projeto de R$ 217 mil.

Isso não significa automaticamente que o valor é inadequado.


É necessário analisar:


  • dedicação;

  • complexidade;

  • responsabilidades;

  • mercado;

  • duração;

  • estrutura da equipe.


Os encargos foram bem calculados?

O valor de R$ 7 mil é apenas ilustrativo.

Em um caso real, deveria existir uma planilha contábil baseada na forma de contratação.


R$ 14 mil são suficientes para transporte e alimentação?

Depende:


  • de quantas atividades;

  • de quantas pessoas;

  • do território;

  • do modelo de transporte;

  • da duração.


O custo administrativo é permitido?

R$ 20 mil correspondem a aproximadamente 9,2% do total do exemplo. Ainda assim, o percentual sozinho não resolve a questão.


É necessário saber:


  • se o edital permite;

  • quais despesas serão pagas;

  • como o rateio foi calculado;

  • como serão comprovadas.


O custo por participante faz sentido?

R$ 217.000 ÷ 120 participantes = aproximadamente R$ 1.808 por participante.

Esse indicador pode ajudar em comparações internas, mas não demonstra sozinho eficiência ou impacto.


Dois projetos com o mesmo custo por participante podem entregar profundidades completamente diferentes.


Como calcular custo por participante, atividade ou resultado

Algumas métricas financeiras são úteis.


Custo por participante

orçamento total ÷ número de participantes

Custo por concluinte

orçamento total ÷ número de participantes que concluíram

Se 90 dos 120 jovens concluírem:

R$ 217.000 ÷ 90 = aproximadamente R$ 2.411 por concluinte.

Custo por oficina

Se forem realizadas 64 oficinas:

R$ 217.000 ÷ 64 = aproximadamente R$ 3.391 por oficina.

Mas tenha cuidado. O projeto não existe apenas para realizar oficinas. Ele também pode envolver:


  • mobilização;

  • acompanhamento;

  • encaminhamento;

  • avaliação;

  • gestão;

  • comunicação;

  • estrutura.


Esses indicadores devem apoiar análise, não simplificar excessivamente a intervenção.


Como um avaliador analisa o orçamento

Em geral, o avaliador procura compreender:


Coerência

Os custos correspondem às atividades?


Necessidade

Cada despesa é realmente necessária?


Suficiência

O orçamento consegue financiar tudo o que foi prometido?


Razoabilidade

Os valores são plausíveis?


Economicidade

A relação entre custo e benefício está justificada?


Elegibilidade

As despesas são permitidas?


Capacidade

A organização conseguirá administrar os recursos?


Clareza

É possível entender como os valores foram calculados?


Proporcionalidade

A distribuição entre atividades, gestão e estrutura parece adequada ao projeto?


A Portaria Conjunta nº 33/2023, atualizada em julho de 2026, determina para os instrumentos por ela regulados que o plano seja analisado quanto à viabilidade, adequação aos objetivos, compatibilidade dos valores e capacidade gerencial do proponente.


Mesmo quando essa norma não se aplica, as perguntas são úteis para revisar qualquer orçamento.


Exemplos de rubricas fracas e melhores

Equipe

Fraca:

Recursos humanos — R$ 100 mil.

Melhor:

Coordenação: um profissional × R$ 6 mil × 12 meses = R$ 72 mil.

Material

Fraca:

Material diverso — R$ 25 mil.

Melhor:

100 kits pedagógicos × R$ 250 = R$ 25 mil.

Transporte

Fraca:

Deslocamentos — R$ 15 mil.

Melhor:

Dez locações de micro-ônibus × R$ 1.500 = R$ 15 mil.

Consultoria

Fraca:

Consultoria técnica — R$ 30 mil.

Melhor:

Consultoria para desenvolvimento e aplicação de avaliação inicial e final, incluindo instrumentos, análise e relatório: um serviço × R$ 30 mil.

Custos administrativos

Fraca:

Taxa administrativa de 10%.

Melhor:

Parcela proporcional de aluguel, internet, contabilidade e sistema financeiro, conforme memória de rateio anexa.

Os 18 erros mais comuns em orçamentos de projetos sociais


1. Começar pelo teto do edital

O orçamento passa a existir para consumir o recurso, não para financiar o projeto.


2. Não ler as despesas proibidas

Uma única rubrica não elegível pode exigir revisão ou comprometer a candidatura.


3. Usar categorias genéricas

“Materiais”, “serviços” e “logística” não explicam como o dinheiro será usado.


4. Esquecer encargos

O salário é apenas parte do custo de uma contratação empregatícia.


5. Não considerar tributos

O valor líquido e o custo total podem ser diferentes.


6. Orçar profissionais abaixo do mercado

Isso pode tornar impossível contratar pessoas qualificadas.


7. Superestimar valores

Preços incompatíveis prejudicam credibilidade e podem gerar questionamentos.


8. Não remunerar a gestão do projeto

Coordenação, administração, monitoramento e prestação de contas são trabalhos reais.

A inclusão depende das regras aplicáveis, mas ignorá-los não faz com que desapareçam.


9. Cobrar a mesma despesa integralmente de vários projetos

Isso gera duplicidade.


10. Não criar memória de rateio

A organização não consegue explicar a divisão de custos compartilhados.


11. Incluir contrapartida sem evidência

Espaços, serviços e horas precisam ser mensurados por método justificável.


12. Tratar trabalho voluntário como mão de obra gratuita ilimitada

Voluntariado exige gestão, proteção e formalização adequada.


13. Não relacionar orçamento e cronograma

Despesas aparecem antes ou depois das atividades correspondentes.


14. Ignorar o fluxo de caixa

O projeto possui orçamento aprovado, mas não consegue pagar fornecedores.


15. Esconder margem de segurança nos preços

Valores artificialmente inflados comprometem transparência.


16. Criar uma reserva genérica de imprevistos sem permissão

Muitos editais não aceitam a rubrica.


17. Não guardar as referências de preço

Na contratação ou prestação de contas, a organização não consegue explicar a estimativa.


18. Alterar o orçamento sem autorização

Remanejamentos devem seguir as regras do edital, contrato ou instrumento.


Como organizar uma planilha de orçamento

Uma planilha interna pode possuir as seguintes colunas:

Coluna

Conteúdo

Código

Identificação da rubrica

Meta

Meta relacionada

Etapa

Etapa de execução

Categoria

Equipe, material, serviço, logística etc.

Descrição

Especificação do item

Justificativa

Por que é necessário

Unidade

Mês, hora, unidade, serviço, diária

Quantidade

Número de unidades

Valor unitário

Custo de cada unidade

Número de períodos

Meses, dias ou ciclos

Valor total

Resultado do cálculo

Fonte do preço

Cotação, site, tabela ou contrato

Data da referência

Quando o preço foi obtido

Financiador

Fonte que pagará

Contrapartida

Valor de outra fonte

Mês de pagamento

Previsão de saída

Observação

Limites ou condições


Essa estrutura permite gerar:


  • orçamento resumido;

  • orçamento detalhado;

  • memória de cálculo;

  • cronograma de desembolso;

  • fluxo de caixa;

  • rateio por fonte.


Um orçamento deveria ter versões diferentes?

Sim.

A organização pode trabalhar com pelo menos três níveis.


Orçamento interno completo

Contém todos os detalhes necessários à gestão.


Orçamento do formulário

Segue as categorias e o nível de detalhamento exigidos pelo edital.


Orçamento de apresentação

Resume os principais valores para reuniões com financiadores e parceiros. Essas versões precisam ser consistentes.


O valor do orçamento apresentado ao patrocinador não pode contradizer o projeto aprovado ou a planilha operacional.


Checklist antes de enviar o orçamento


Regras


  • Todas as despesas são permitidas?

  • Os limites percentuais foram respeitados?

  • O período das despesas está dentro da vigência?

  • Equipamentos são permitidos?

  • A contrapartida está correta?

  • A equipe própria pode ser remunerada?


Coerência


  • Cada atividade possui recursos?

  • Cada rubrica corresponde a uma atividade?

  • O orçamento financia todas as metas?

  • O cronograma combina com os pagamentos?

  • O número de participantes corresponde aos materiais?


Equipe


  • As funções estão descritas?

  • A dedicação está clara?

  • Salários ou honorários são compatíveis?

  • Encargos foram considerados?

  • Não há dupla cobrança de profissionais?


Valores


  • Existe memória de cálculo?

  • Os preços estão atualizados?

  • As fontes foram arquivadas?

  • Fretes e tributos foram considerados?

  • Os custos refletem a região de execução?


Administração


  • Os custos indiretos são permitidos?

  • Estão detalhados?

  • Há memória de rateio?

  • Não existe sobreposição entre financiadores?

  • A organização evitou uma taxa genérica?


Fluxo de caixa


  • As datas de entrada são conhecidas?

  • As despesas iniciais podem ser pagas?

  • Existe modelo de reembolso?

  • A organização possui capital de giro?

  • As parcelas correspondem às etapas?


Revisão final


  • As somas estão corretas?

  • O valor global corresponde ao formulário?

  • Todas as versões possuem os mesmos números?

  • O orçamento foi revisado pela equipe do projeto?

  • A contabilidade analisou encargos e tributos?

  • O responsável pela prestação de contas participou da revisão?


Perguntas frequentes sobre orçamento de projetos sociais


Como começar o orçamento de um projeto social?

Comece pelas atividades. Liste tudo o que será necessário para executá-las, transforme os recursos em quantidades, obtenha referências de preço e calcule o custo total. Depois organize os itens conforme as categorias do edital.


Devo sempre pedir o valor máximo do edital?

Não. O valor solicitado deve corresponder ao custo real e justificável do projeto. Pedir o teto sem necessidade pode produzir um orçamento artificial ou reduzir a competitividade da proposta.


Posso incluir o salário da equipe da ONG?

Depende das regras do financiador. No MROSC e em determinados instrumentos públicos, a remuneração de pessoal próprio pode ser admitida quando prevista, proporcional e relacionada à execução. Editais privados possuem regras próprias.


Posso incluir aluguel, internet e contabilidade?

Depende da oportunidade. Esses itens podem ser considerados custos indiretos ou administrativos e precisam estar permitidos, detalhados e relacionados à execução. Quando compartilhados, exigem memória de rateio.


Qual percentual usar para custos administrativos?

Não existe percentual universal. Alguns editais estabelecem limite. Outros não permitem. A Lei Rouanet possui limite próprio de 15% na regulamentação vigente em julho de 2026, mas esse percentual não deve ser aplicado automaticamente a outros mecanismos.


Preciso apresentar três orçamentos para cada item?

Não existe regra universal. O edital pode exigir três cotações, outro método de pesquisa ou apenas justificativa de mercado. Confirme no regulamento.


O que é memória de cálculo?

É a demonstração de como o valor foi obtido, normalmente relacionando quantidade, unidade, período e custo unitário.


Como calcular uma despesa compartilhada?

Escolha um critério objetivo, como horas de dedicação, área utilizada ou número de profissionais. Aplique o percentual sobre o custo total e documente o cálculo, evitando cobrar a mesma parcela de mais de uma fonte.


Posso incluir uma reserva para imprevistos?

Somente se o edital permitir. Muitos financiadores não aceitam rubricas genéricas de contingência. Nesse caso, use preços realistas e verifique as regras de remanejamento.


Como calcular o custo de um profissional CLT?

Considere remuneração, encargos patronais, FGTS, férias, décimo terceiro, benefícios e demais custos aplicáveis. O cálculo deve ser realizado com a contabilidade, pois depende da situação jurídica e trabalhista específica.


Trabalho voluntário pode ser contrapartida?

Pode, quando o edital permitir e houver método justificável de valoração e comprovação. A relação voluntária também deve observar a Lei nº 9.608/1998 e ser formalizada por termo de adesão.


O orçamento pode ser alterado depois da aprovação?

Em muitos casos, sim, desde que sejam respeitados os limites, procedimentos e autorizações aplicáveis. Nunca presuma que uma rubrica pode ser modificada livremente.


Conclusão: o orçamento mostra se o projeto é realmente executável

Um orçamento não é bom apenas porque a soma está correta. Ele é bom quando consegue demonstrar que:


  • a metodologia foi planejada;

  • as atividades possuem recursos suficientes;

  • a equipe será remunerada de forma responsável;

  • os valores são plausíveis;

  • as despesas são permitidas;

  • custos administrativos foram tratados com transparência;

  • o cronograma financeiro acompanha a execução;

  • a organização sabe como comprovar cada gasto.


Um avaliador experiente consegue identificar rapidamente quando os números foram inseridos apenas para preencher uma planilha.


Também percebe quando o projeto foi construído por uma equipe que conhece:


  • sua operação;

  • seu território;

  • seus profissionais;

  • seus fornecedores;

  • seus custos;

  • seus riscos;

  • sua capacidade financeira.


O melhor orçamento não é necessariamente o mais barato. É aquele que oferece uma relação coerente entre recursos, atividades e resultados.


Reduzir artificialmente salários, eliminar custos administrativos ou subestimar a logística pode fazer o projeto parecer econômico no papel.


Na execução, porém, essas escolhas podem gerar:


  • sobrecarga;

  • rotatividade;

  • atrasos;

  • entregas incompletas;

  • uso indevido de recursos de outras fontes;

  • problemas de prestação de contas.


Da mesma maneira, inflar valores sem justificativa não protege a organização. Apenas enfraquece sua credibilidade. O orçamento precisa ser realista: sobre quanto custa uma equipe qualificada, o que os participantes precisam, sobre os recursos necessários para monitorar resultados, sobre o trabalho administrativo que sustenta a execução e realista sobre a capacidade financeira da própria organização.


Quando metodologia, orçamento, cronograma e fluxo de caixa contam a mesma história, o projeto deixa de ser apenas uma boa intenção. Ele se torna uma proposta executável.


Fontes e referências


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