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Captação de recursos para ONGs no Brasil: estratégias, fontes, legislação e um caminho para a sustentabilidade financeira

Captação de Recursos para ONGs

ONG Orpas

Jul 14, 2026

Entenda como captar recursos para ONGs no Brasil, diversificar receitas, conquistar doadores, participar de editais e construir sustentabilidade financeira.

Captar recursos para uma ONG não significa simplesmente pedir dinheiro.

Significa construir relações de confiança, demonstrar relevância pública, transformar impacto em evidências compreensíveis e conectar pessoas, empresas, fundações ou governos a uma causa capaz de produzir mudanças concretas.


Essa distinção é decisiva.


Uma organização pode executar um trabalho extraordinário e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras permanentes. Pode ter legitimidade em sua comunidade, uma equipe comprometida e resultados relevantes, mas não conseguir pagar custos administrativos, manter profissionais qualificados, investir em tecnologia ou planejar os próximos dois anos.


O problema, nesses casos, nem sempre é a falta absoluta de recursos disponíveis. Muitas vezes, é a ausência de uma estratégia institucional capaz de transformar propósito, relacionamentos, credibilidade, projetos e resultados em uma arquitetura sustentável de financiamento.


E esse desafio ocorre em um país com um universo amplo e diverso de organizações. Segundo a edição mais recente da pesquisa FASFIL, do IBGE, o Brasil possuía 596,3 mil unidades de fundações privadas e associações sem fins lucrativos em 2023, aumento de 4% em relação a 2022. É importante observar que o conceito estatístico de FASFIL não corresponde exatamente a todo o universo possível de organizações da sociedade civil, razão pela qual diferentes levantamentos podem apresentar números distintos.


Ao mesmo tempo, existe disposição para doar. A Pesquisa Doação Brasil 2024, coordenada pelo IDIS, apontou que 78% dos brasileiros adultos com renda familiar superior a um salário mínimo fizeram algum tipo de doação em 2024 — de dinheiro, bens ou tempo. A mesma agenda de pesquisa também evidencia um dos maiores desafios do setor: a confiança é determinante para a decisão de doar, mas a percepção pública de confiabilidade das organizações ainda apresenta limitações.

É justamente entre a existência de causas relevantes e a disponibilidade potencial de recursos que vive a captação.


Este guia explica como percorrer esse caminho.


O que é captação de recursos para ONGs?

Captação de recursos é o processo estratégico pelo qual uma organização mobiliza os meios necessários para cumprir sua missão.


Esses recursos podem ser financeiros, mas não apenas. Uma ONG também pode mobilizar:


  • produtos e equipamentos;

  • imóveis ou espaços cedidos;

  • tecnologia;

  • serviços profissionais;

  • mídia;

  • conhecimento especializado;

  • trabalho voluntário;

  • conexões institucionais;

  • dados;

  • infraestrutura.


Em sentido profissional, portanto, captar recursos não equivale a organizar uma campanha ocasional para cobrir um déficit de caixa. Trata-se de desenvolver uma capacidade institucional contínua para atrair, administrar, cultivar e renovar diferentes formas de apoio.


Uma boa estratégia responde a cinco perguntas essenciais:


Por que alguém deveria apoiar esta organização?

Que mudança concreta a organização é capaz de produzir?

Quais financiadores têm afinidade real com essa causa, território e abordagem?

Qual é a melhor proposta de valor para cada perfil de apoiador?

Como transformar uma primeira contribuição em uma relação de confiança de longo prazo?


É por isso que a captação começa antes do pedido. Começa na identidade institucional.


Antes de captar, uma ONG precisa saber explicar por que existe! Muitas organizações descrevem suas atividades, mas não conseguem explicar com clareza sua transformação.

Há uma enorme diferença entre dizer:

“Realizamos oficinas de capacitação para 200 jovens.”

e dizer:

“Preparamos jovens de baixa renda para ampliar suas possibilidades de inserção profissional, combinando formação prática, desenvolvimento socioemocional e conexão com oportunidades de trabalho.”

A primeira frase informa uma atividade.

A segunda começa a demonstrar uma lógica de transformação.


Para captar com consistência, uma organização precisa ser capaz de articular pelo menos seis elementos:


O problema: qual realidade precisa mudar?

A população ou território: para quem e onde a organização atua?

A resposta: o que exatamente a instituição faz?

O diferencial: por que essa abordagem é relevante?

A evidência: como sabemos que o trabalho está produzindo resultados?

A visão de futuro: o que se tornaria possível com mais recursos?


Uma instituição que não consegue responder a essas perguntas com clareza terá dificuldade para produzir bons projetos, conquistar grandes doadores, estabelecer parcerias empresariais e competir em editais.


Isso não significa reduzir a complexidade social a slogans publicitários. Significa tornar a complexidade compreensível sem distorcê-la.


A sustentabilidade financeira não nasce de uma única fonte

Uma das maiores fragilidades de uma ONG é depender excessivamente de um único financiador.


Imagine uma organização com orçamento anual de R$ 1 milhão que recebe R$ 800 mil de uma única empresa. Aparentemente, ela está bem financiada. Na prática, porém, possui uma concentração extraordinária de risco.


Uma mudança na liderança da companhia, uma reorganização orçamentária, uma fusão, uma crise econômica ou uma alteração na estratégia de responsabilidade social pode comprometer 80% da receita da organização.


Diversificar não significa, necessariamente, ter dezenas de fontes de receita. Significa evitar que a sobrevivência institucional dependa de poucas decisões externas.


Uma arquitetura saudável pode combinar, conforme a realidade da instituição:


  • doações individuais;

  • doações recorrentes;

  • grandes doadores;

  • empresas;

  • institutos e fundações;

  • editais nacionais e internacionais;

  • parcerias com o poder público;

  • leis de incentivo fiscal;

  • campanhas de financiamento coletivo;

  • eventos;

  • geração de receitas próprias compatíveis com a natureza jurídica da instituição;

  • fundos patrimoniais, quando aplicáveis;

  • legados e doações planejadas;

  • programas públicos estaduais e municipais.


O melhor portfólio não é o que possui o maior número possível de mecanismos. É aquele que apresenta coerência com a causa, a capacidade operacional, a reputação, a localização, o estágio de desenvolvimento e o modelo de atuação da organização.


1. Doações de pessoas físicas

A doação individual é uma das formas mais importantes de independência financeira para uma organização.


Seu valor estratégico vai além do dinheiro.


Uma base ampla de pessoas doadoras pode representar legitimidade social, maior resiliência, capacidade de mobilização e menor dependência de poucos financiadores institucionais.


Mas conquistar doadores individuais exige uma mudança de mentalidade. Pessoas raramente desejam financiar uma linha de uma planilha. Elas querem entender:


  • quem será beneficiado;

  • qual problema será enfrentado;

  • o que sua contribuição viabiliza;

  • por que aquela organização merece confiança;

  • o que aconteceu depois da doação.


A comunicação, portanto, não é um adereço da captação. É parte da própria infraestrutura de financiamento.


Uma boa campanha de doação individual precisa apresentar um pedido específico, um mecanismo simples de pagamento e uma razão convincente para agir. Pode utilizar Pix, cartão, boleto ou outras formas, mas a tecnologia sozinha não resolve o problema central: por que essa pessoa deveria escolher esta causa e esta instituição?


Doação recorrente: o pequeno valor que muda o planejamento

Uma contribuição mensal de R$ 30 pode parecer pequena isoladamente. Mas mil pessoas doando R$ 30 por mês representam R$ 360 mil por ano.


A recorrência permite prever receitas, planejar operações e reduzir o custo de conquistar repetidamente novos apoiadores.


O principal desafio não é apenas obter a primeira doação. É diminuir a perda de doadores ao longo do tempo. Para isso, a instituição precisa estabelecer uma verdadeira jornada de relacionamento:


  1. acolher e agradecer;

  2. explicar o que acontecerá a partir daquele apoio;

  3. apresentar evidências do trabalho;

  4. compartilhar histórias com dignidade;

  5. prestar contas;

  6. escutar o apoiador;

  7. renovar o vínculo.


A pergunta estratégica deixa de ser “como conseguir uma doação?” e passa a ser “como construir uma relação na qual o doador queira continuar participando?”.


2. Grandes doadores

Grandes doadores individuais podem financiar projetos, expansão, inovação, infraestrutura ou até o fortalecimento institucional de uma ONG.


Mas esse tipo de captação costuma ser profundamente relacional.


Um grande doador raramente surge apenas porque encontrou um botão de doação na página inicial de um site. Em muitos casos, existe um processo que envolve confiança, reputação, referências, conversas, contato com lideranças, compreensão da causa e clareza sobre o impacto esperado.


Por isso, uma estratégia de grandes doadores pode começar com o mapeamento da própria rede da organização:


  • conselheiros;

  • fundadores;

  • parceiros;

  • antigos doadores;

  • empresários locais;

  • profissionais influentes;

  • famílias filantrópicas;

  • pessoas com ligação biográfica com a causa;

  • apoiadores que já demonstram engajamento excepcional.


Isso não significa abordar indiscriminadamente pessoas ricas. Patrimônio financeiro não é sinônimo de afinidade. A pergunta mais relevante é: quem tem conexão real ou potencial com o problema que buscamos enfrentar?


3. Parcerias com empresas

Empresas podem apoiar organizações por meio de:


  • doações diretas;

  • patrocínio de projetos;

  • financiamento incentivado;

  • voluntariado corporativo;

  • cessão de tecnologia;

  • doação de produtos;

  • campanhas com consumidores;

  • marketing relacionado a causas;

  • arredondamento de pagamentos;

  • matchfunding;

  • apoio logístico;

  • serviços pro bono.


Para a ONG, porém, é um erro abordar qualquer empresa apenas porque ela possui dinheiro.


Uma boa prospecção empresarial considera pelo menos:


Afinidade temática: a empresa possui estratégia social relacionada à causa?

Geografia: opera nos mesmos territórios?

Públicos de interesse: existe relação entre a causa e funcionários, clientes, fornecedores ou comunidades próximas?

Histórico: a companhia já financiou iniciativas semelhantes?

Materialidade: determinado problema social ou ambiental possui relação legítima com sua atividade?

Reputação e ética: a parceria é compatível com os valores da organização?


Captação responsável também significa saber recusar recursos quando houver incompatibilidade ética relevante, riscos de instrumentalização da causa ou tentativas de utilizar a ONG apenas para produzir uma aparência superficial de responsabilidade social.


4. Institutos, fundações e grantmakers

Fundações, institutos familiares, institutos empresariais, fundos filantrópicos e outros grantmakers constituem uma importante fonte de apoio à sociedade civil.


O termo grantmaking costuma ser utilizado para designar a concessão de recursos a organizações ou iniciativas. O GIFE mantém, inclusive, uma rede dedicada à qualificação dessa prática no investimento social privado brasileiro.


Esse financiamento pode ocorrer mediante:


  • editais abertos;

  • cartas-convite;

  • relacionamento direto;

  • chamadas temáticas;

  • financiamento institucional;

  • apoio a projetos;

  • fundos emergenciais;

  • apoio plurianual;

  • bolsas e fellowships.


O erro mais comum das ONGs é começar escrevendo o projeto antes de entender o financiador.


Antes de investir horas em uma candidatura, investigue:


  • missão do financiador;

  • temas prioritários;

  • perfil das organizações já apoiadas;

  • abrangência geográfica;

  • tamanho típico das doações;

  • duração dos apoios;

  • restrições de elegibilidade;

  • exigência ou não de contrapartida;

  • possibilidade de financiar custos institucionais;

  • processo de seleção.


A candidatura mais forte não é necessariamente a mais eloquente. É aquela que demonstra alinhamento verdadeiro sem deformar a missão da ONG para caber artificialmente no edital.


5. Editais para ONGs

Editais podem oferecer recursos públicos ou privados para projetos sociais, culturais, ambientais, educacionais, científicos, esportivos, comunitários e de defesa de direitos.


O Mapa das OSC, iniciativa vinculada ao Ipea, disponibiliza uma área de editais em colaboração com a plataforma Prosas, reunindo oportunidades para organizações da sociedade civil. O próprio GIFE também mantém divulgação de chamadas e editais do campo do investimento social privado.


Mas participar de mais editais não significa necessariamente captar melhor.


Uma organização pode desperdiçar centenas de horas preparando propostas para oportunidades em que possui pouca chance real de aprovação.

Um sistema profissional de seleção deve avaliar:


Critério

Pergunta fundamental

Elegibilidade

Podemos legalmente participar?

Alinhamento

Nossa missão realmente corresponde à chamada?

Território

Atuamos na área geográfica prevista?

Histórico

Temos experiência suficiente?

Capacidade

Conseguiremos executar o projeto?

Orçamento

O recurso é compatível com o esforço necessário?

Contrapartida

Temos condições de oferecê-la?

Prazo

É possível preparar uma candidatura competitiva?

Prestação de contas

Temos capacidade administrativa para cumprir as exigências?

Uma regra simples ajuda: a aprovação começa na decisão de não concorrer ao edital errado.


6. Parcerias com o poder público e o MROSC

Para organizações que buscam celebrar parcerias com a administração pública, a Lei nº 13.019, de 31 de julho de 2014, conhecida como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, ou MROSC, é uma referência central.


A lei estabelece o regime jurídico das parcerias entre a administração pública e as organizações da sociedade civil para finalidades de interesse público e recíproco, por meio de instrumentos como termo de colaboração, termo de fomento e acordo de cooperação. No âmbito federal, o Decreto nº 8.726/2016 regulamenta a aplicação da Lei nº 13.019/2014.


Em termos gerais:


  • o termo de colaboração é utilizado, nos termos do MROSC, para parcerias propostas pela administração pública com transferência de recursos;

  • o termo de fomento é utilizado para parcerias propostas pela própria OSC com transferência financeira;

  • o acordo de cooperação, em regra, é utilizado quando não há transferência de recursos financeiros.


A legislação também estabelece requisitos de governança, documentação, transparência, planejamento, monitoramento e prestação de contas. A própria Lei nº 13.019/2014 determina que as OSCs divulguem na internet e em locais visíveis de suas sedes as parcerias celebradas com o poder público.


Para a organização, isso produz uma conclusão importante: obter recursos públicos exige muito mais que escrever bem um projeto. É necessário possuir capacidade administrativa, financeira, documental e operacional para executar e comprovar adequadamente o objeto pactuado.


Observação jurídica: as exigências concretas variam de acordo com o instrumento, o ente público, a regulamentação aplicável, o edital e a situação específica da OSC. Informações gerais sobre legislação não substituem análise jurídica ou contábil individualizada.


7. Leis de incentivo fiscal

O Brasil possui diferentes mecanismos pelos quais contribuintes podem direcionar parcelas do imposto devido para fundos ou projetos previamente enquadrados nas regras aplicáveis.


Entre eles estão mecanismos relacionados a:


  • cultura;

  • esporte;

  • direitos da criança e do adolescente;

  • direitos da pessoa idosa;

  • outras áreas específicas previstas em legislação.


Na Lei Rouanet, por exemplo, o Ministério da Cultura informa limites de até 6% do imposto devido para pessoas físicas e 4% para pessoas jurídicas, observadas as condições e regras aplicáveis ao mecanismo.


No caso das destinações efetuadas diretamente na declaração anual do Imposto de Renda da pessoa física, a Receita Federal informa a possibilidade de destinar até 3% aos fundos de proteção à criança e ao adolescente e outros 3% aos fundos de proteção à pessoa idosa, nos termos das regras aplicáveis.


É fundamental, contudo, compreender uma diferença frequentemente ignorada: uma ONG não pode simplesmente declarar que recebe doações incentivadas. Cada mecanismo possui regras próprias sobre quem pode propor projetos, como ocorre a aprovação, quem pode aportar os recursos, quais limites se aplicam, como é feita a movimentação financeira e quais são as obrigações de prestação de contas.


A organização deve analisar cuidadosamente a legislação atual e o mecanismo específico antes de estruturar qualquer campanha.


8. Financiamento coletivo ou crowdfunding

O crowdfunding permite mobilizar muitas pessoas em torno de uma meta financeira específica.


Pode funcionar particularmente bem para:


  • emergências;

  • projetos concretos;

  • aquisição de equipamentos;

  • construções e reformas;

  • campanhas de prazo determinado;

  • causas com forte capacidade de mobilização comunitária.


Uma campanha eficaz precisa responder imediatamente:


Quanto precisamos?

Para quê?

Até quando?

O que acontecerá concretamente se a meta for atingida?


A transparência precisa continuar depois da arrecadação. A organização deve comunicar a aplicação dos recursos e, quando houver mudanças relevantes no projeto inicialmente anunciado, explicá-las com clareza.


9. Eventos de captação

Jantares, corridas, bazares, shows, leilões beneficentes e outros eventos podem mobilizar recursos e ampliar a comunidade de apoiadores.


Mas é preciso avaliar o retorno verdadeiro.


Um jantar que arrecada R$ 100 mil, mas custa R$ 70 mil e consome meses de trabalho de uma equipe, não produziu R$ 100 mil de receita líquida.


Todo evento deveria ser analisado considerando:

Receita bruta − custos diretos − custos indiretos = resultado financeiro real.

E há outra pergunta: além do dinheiro, o evento ajudou a conquistar novos doadores, aproximar parceiros estratégicos ou fortalecer a comunidade?


Quando o resultado financeiro e o resultado relacional são baixos, talvez o evento esteja sendo mantido por tradição — não por estratégia.


O erro de captar apenas para projetos

Uma das questões mais difíceis do terceiro setor é o financiamento da própria organização.


Quem paga:


  • o aluguel?

  • a contabilidade?

  • a auditoria?

  • o sistema de gestão?

  • a captação?

  • a comunicação?

  • o salário da equipe administrativa?

  • a segurança digital?

  • a formação dos profissionais?

  • a avaliação de impacto?


Nenhum projeto funciona no vazio.


Ainda assim, muitas organizações internalizam a ideia de que custos administrativos seriam recursos “desviados” da missão. Essa percepção é prejudicial. Bons sistemas, profissionais qualificados, controle financeiro, governança, tecnologia e gestão são condições para que a missão seja realizada com consistência.


Isso não legitima desperdício ou falta de eficiência. Significa reconhecer que organizações precisam de infraestrutura para produzir impacto.


Uma estratégia madura busca negociar taxas administrativas quando permitidas, inserir custos indiretos legítimos nos orçamentos, conquistar apoio institucional irrestrito e explicar aos financiadores por que uma instituição forte é essencial para resultados sustentáveis.


Transparência não é apenas prestação de contas: é estratégia de confiança

A organização que deseja captar precisa tornar fácil a resposta às seguintes perguntas:


  • Quem governa a instituição?

  • Quem são seus dirigentes?

  • Qual é sua missão?

  • Onde atua?

  • O que realizou?

  • Quem financia seu trabalho?

  • Como os recursos são utilizados?

  • Quais foram os resultados?

  • Existem demonstrações financeiras?

  • Existem relatórios de atividades?

  • Como entrar em contato?


Nas parcerias regidas pelo MROSC, há obrigações específicas de transparência previstas na legislação. Mas, para além da obrigação jurídica, uma política robusta de transparência funciona como infraestrutura reputacional.


Isso é especialmente importante porque pesquisas recentes sobre doação no Brasil mostram o papel decisivo da confiança na disposição para contribuir. O IDIS relatou, a partir da Pesquisa Doação Brasil 2024, que 81% dos brasileiros consideram a confiança determinante para doar, enquanto apenas 30% acreditavam que a maioria das ONGs fosse confiável.


A distância entre esses dois números deveria ser tratada pelo setor como uma agenda estratégica.


A LGPD também importa para a captação de recursos

Listas de doadores, newsletters, históricos de contribuição, telefones, e-mails e informações utilizadas para segmentação podem envolver tratamento de dados pessoais.


A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, Lei nº 13.709/2018, aplica-se ao tratamento de dados por pessoas naturais e jurídicas de direito público ou privado, nos termos definidos pela própria legislação. Ela assegura direitos aos titulares, incluindo, em diferentes circunstâncias, acesso, correção, eliminação, informação e revogação de consentimento.


Na prática, uma ONG deveria tratar sua base de apoiadores como um ativo de confiança, não como uma lista que pode ser utilizada indiscriminadamente.


Isso envolve, entre outras providências aplicáveis à realidade concreta:


  • clareza sobre quais dados são coletados;

  • finalidade definida;

  • segurança;

  • controle de acesso;

  • mecanismos para atender aos direitos dos titulares;

  • cuidado com fornecedores e plataformas;

  • políticas internas adequadas.


Questões específicas devem ser analisadas à luz da LGPD, das orientações da ANPD e, quando necessário, com assessoria especializada.


Como criar uma estratégia de captação de recursos em 10 passos

1. Calcule a necessidade financeira real

Quanto a organização precisa para operar nos próximos 12 meses?

Não considere apenas os projetos. Inclua equipe, gestão, tecnologia, captação, comunicação, reservas, manutenção e demais custos reais.


2. Mapeie todas as receitas atuais

Para cada fonte, registre:


  • valor anual;

  • duração;

  • probabilidade de renovação;

  • restrições;

  • pessoa responsável;

  • custo de captação;

  • concentração de risco.


3. Defina metas de diversificação

Por exemplo:

Reduzir de 70% para 45% a dependência do maior financiador em dois anos.

Essa é uma meta estratégica. “Captar mais” não é.


4. Escolha as fontes prioritárias

Uma pequena ONG comunitária talvez consiga melhores resultados com doadores locais, empresas do território e editais municipais do que tentando imediatamente conquistar grandes fundações internacionais.


A estratégia deve respeitar a realidade institucional.


5. Construa uma proposta de valor

Explique com clareza:


  • o problema;

  • sua solução;

  • seu diferencial;

  • suas evidências;

  • sua necessidade;

  • a oportunidade oferecida ao financiador.


6. Organize materiais essenciais

Uma organização deveria possuir, conforme seu estágio e necessidades:


  • apresentação institucional;

  • relatório anual ou de atividades;

  • orçamento;

  • documentos jurídicos atualizados;

  • demonstrações financeiras;

  • indicadores;

  • histórias de impacto;

  • projeto padrão adaptável;

  • página de transparência;

  • formulário ou processo simples de doação.


7. Crie um pipeline de oportunidades

Não trabalhe com oportunidades dispersas em e-mails e mensagens.

Mantenha uma base com:


  • financiador;

  • contato;

  • fonte;

  • valor potencial;

  • estágio;

  • próxima ação;

  • responsável;

  • prazo;

  • probabilidade estimada.


A captação precisa ser gerida como processo.


8. Estabeleça uma rotina de relacionamento

Nem todo contato deve conter um pedido.

Compartilhe resultados, convide para visitas, peça opinião, apresente aprendizados e mantenha financiadores próximos da realidade do trabalho.


9. Acompanhe indicadores

Algumas métricas úteis são:


Receita total captada

Quanto foi efetivamente arrecadado?

Receita por fonte

Qual a participação de indivíduos, empresas, fundações, governo e outras fontes?

Concentração de receita

Quanto do orçamento depende do maior financiador ou dos cinco maiores?

Taxa de renovação

Quantos apoiadores continuaram financiando?

Retenção de doadores

Quantos doadores permanecem ativos após 12 meses?

Ticket médio

Qual o valor médio das contribuições?

Custo de captação

Quanto foi investido para gerar determinada receita?

Retorno sobre investimento em captação

Quanto cada real investido na estratégia gerou em receita?


Nenhuma métrica isolada conta a história inteira. Uma campanha pode apresentar custo elevado no primeiro ano e tornar-se rentável ao longo de um relacionamento recorrente.


10. Aprenda sistematicamente

Após um edital perdido, pergunte por quê.

Após uma parceria encerrada, investigue a causa.

Após uma campanha fraca, analise a jornada.

Após um grande sucesso, descubra o que pode ser replicado.

Captação profissional é também um sistema de aprendizado.


Sete erros que prejudicam a captação de recursos


1. Procurar o financiador apenas quando o dinheiro acaba

Desespero financeiro reduz poder de negociação e favorece decisões ruins.


2. Enviar a mesma proposta para todos

Empresas, fundações, pessoas e governos possuem motivações, linguagens e critérios diferentes.


3. Falar apenas da organização

O centro da narrativa deve ser o problema enfrentado, as pessoas e comunidades envolvidas e a transformação buscada — não a autopromoção institucional.


4. Confundir história emocionante com evidência

Histórias são importantes, mas um caso individual não substitui dados, indicadores, metodologia e avaliação.


5. Conseguir a doação e desaparecer

Silêncio depois da contribuição destrói oportunidades de relacionamento de longo prazo.


6. Inventar impacto

Nunca transforme projeções em resultados realizados. Nunca exagere números para tornar uma campanha mais dramática. Credibilidade perdida é muito mais difícil de recuperar do que uma meta financeira não alcançada.


7. Tratar captação como responsabilidade de uma única pessoa

O captador pode coordenar o processo, mas presidência, diretoria, conselhos, programas, comunicação e finanças possuem papéis importantes.


A melhor captação é institucional.


Um exemplo de plano anual de captação

Imagine uma ONG com orçamento atual de R$ 500 mil e objetivo de chegar a R$ 700 mil no próximo exercício.


Uma possível composição seria:

Fonte

Meta anual

Doador institucional atual

R$ 250.000

Novas fundações e institutos

R$ 150.000

Empresas

R$ 100.000

Pessoas físicas recorrentes

R$ 72.000

Campanhas pontuais

R$ 48.000

Editais públicos

R$ 80.000

Total

R$ 700.000

O ponto mais importante não é copiar esses percentuais.


É decompor a meta global em fontes, responsáveis, prazos, atividades e indicadores.

“Precisamos captar R$ 700 mil” é uma ambição.

“Precisamos conquistar duas novas fundações, três parceiros empresariais e 200 doadores mensais com ticket médio de R$ 30” começa a ser uma estratégia executável.


Qual é a melhor fonte de recursos para uma ONG?

Não existe uma resposta universal.


Uma boa fonte de financiamento possui alinhamento com a missão, condições aceitáveis, custo de captação razoável, risco administrável e compatibilidade com a capacidade operacional da organização.


A pergunta correta não é:

“Onde existe dinheiro disponível?”

É:

“Que combinação de fontes nos permite cumprir nossa missão com independência, estabilidade, integridade e capacidade de planejar o futuro?”

Uma grande doação pode ser transformadora, mas gerar dependência.


Mil pequenos doadores podem gerar autonomia, mas exigir infraestrutura tecnológica e comunicação contínua.


Um edital público pode financiar uma grande expansão, mas impor exigências administrativas significativas.


Uma empresa pode abrir novas oportunidades, mas a parceria precisa ser coerente com os valores institucionais.


Estratégia significa compreender esses trade-offs.


Captação é, no fundo, a construção de confiança organizada

ONGs não captam porque descobriram a palavra perfeita para um anúncio.


Captam de forma sustentável quando conseguem aproximar quatro elementos:

relevância da causa, capacidade de execução, evidências de resultado e confiança.


A comunicação torna esses elementos visíveis.

A governança os protege.

A gestão os transforma em capacidade operacional.

A transparência os torna verificáveis.


E o relacionamento converte uma transação isolada em compromisso duradouro.

No Brasil, onde centenas de milhares de organizações desenvolvem atividades sociais, comunitárias, culturais, ambientais, religiosas, educacionais, de saúde, defesa de direitos e tantas outras, fortalecer a capacidade de mobilizar recursos é também fortalecer a própria sociedade civil.


A organização financeiramente sustentável não é necessariamente aquela que possui mais dinheiro.


É aquela que sabe por que existe, conhece o custo verdadeiro de sua missão, constrói relações legítimas, diversifica seus riscos, demonstra seus resultados e mantém a confiança daqueles que decidem caminhar com ela.


Perguntas frequentes sobre captação de recursos para ONGs

Como uma ONG pode captar recursos no Brasil?

Uma ONG pode mobilizar recursos por meio de doações individuais, programas de doação recorrente, grandes doadores, empresas, fundações, institutos, editais, parcerias com o poder público, mecanismos de incentivo fiscal, crowdfunding, eventos e outras fontes compatíveis com sua natureza jurídica e suas atividades. As exigências legais e tributárias variam conforme o mecanismo.


ONG pode receber doações via Pix?

Em termos gerais, organizações podem utilizar meios eletrônicos de pagamento para receber recursos, desde que observem sua regularidade jurídica, contábil, fiscal e os demais requisitos aplicáveis. Uma boa prática é utilizar contas institucionais e manter controles que permitam identificar, registrar e conciliar adequadamente as receitas.


Uma ONG precisa de autorização para captar doações?

Não existe uma única autorização federal genérica chamada “licença para captar doações” que se aplique indistintamente a toda forma de arrecadação por qualquer OSC. Contudo, mecanismos específicos — como recursos públicos, fundos de direitos e leis de incentivo — possuem regras próprias, processos de aprovação, elegibilidade e prestação de contas.


Como conseguir empresas patrocinadoras para uma ONG?

O processo começa identificando empresas com alinhamento temático, territorial ou estratégico com a causa. Em seguida, a ONG deve compreender as prioridades da companhia, identificar as pessoas responsáveis e apresentar uma proposta clara de parceria, com objetivos, orçamento, resultados esperados, responsabilidades e formas legítimas de reconhecimento.


Como encontrar editais abertos para ONGs?

Entre as possibilidades estão páginas oficiais de fundações, institutos, governos, organismos internacionais e plataformas especializadas. O Mapa das OSC mantém uma área dedicada a oportunidades e editais, assim como organizações do ecossistema filantrópico, como o GIFE. Antes de apresentar uma candidatura, sempre confirme diretamente na página oficial do financiador se a oportunidade permanece aberta e quais são as regras vigentes.


O que é necessário para elaborar um bom projeto de captação?

Um projeto competitivo deve apresentar, entre outros elementos pertinentes, diagnóstico do problema, público, território, objetivos, metodologia, atividades, cronograma, indicadores, resultados esperados, orçamento, capacidade da organização, estratégia de monitoramento e coerência com as prioridades do financiador.


A ONG deve mostrar quanto gasta com administração?

A transparência financeira é importante para construir confiança. Além disso, em determinadas relações e parcerias existem deveres específicos de divulgação e prestação de contas. Custos administrativos legítimos não devem ser tratados automaticamente como desperdício: gestão, contabilidade, tecnologia, pessoas, controles e infraestrutura são necessários para a execução responsável da missão.


Qual é o maior erro na captação de recursos?

Um dos mais graves é procurar dinheiro sem construir uma estratégia institucional: perseguir qualquer edital, adaptar artificialmente a missão aos interesses do financiador e depender de poucas fontes. A captação sustentável exige foco, relacionamento, diversificação, evidências, boa gestão e confiança.


Principais conclusões


A captação de recursos deve ser tratada como uma competência permanente da organização, e não como uma reação episódica à falta de dinheiro.

Sustentabilidade financeira depende de alinhamento entre missão, estratégia, capacidade de execução e diversificação das fontes.


Pessoas, empresas, fundações e governos possuem motivações e exigências diferentes; por isso, uma proposta universal raramente funciona.


Confiança é um dos principais ativos de uma ONG. Transparência, governança, comunicação e evidências de impacto fazem parte da própria estratégia de captação.

A organização não deve captar apenas para atividades finalísticas. Estrutura, equipe, tecnologia, controles, comunicação e desenvolvimento institucional também tornam a missão possível.


Por fim, a melhor captação não é simplesmente aquela que gera mais receita no curto prazo. É aquela que amplia a capacidade da organização de cumprir sua missão com estabilidade, independência, responsabilidade e visão de longo prazo.


Fontes e referências principais

IBGE — FASFIL 2023. Dados sobre fundações privadas e associações sem fins lucrativos, divulgados em 18 de dezembro de 2025.

Ipea — Mapa das Organizações da Sociedade Civil. Base pública de informações sobre OSCs e oportunidades de financiamento.

Presidência da República — Lei nº 13.019/2014. Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil.

Presidência da República — Decreto nº 8.726/2016. Regulamentação federal do MROSC.

Receita Federal — Destinação na Declaração do Imposto de Renda. Orientações atualizadas em 17 de março de 2026.

Ministério da Cultura — Lei Rouanet. Regras gerais e limites divulgados pelo órgão federal responsável pelo mecanismo.

IDIS — Pesquisa Doação Brasil 2024. Pesquisa sobre práticas, percepções e comportamento dos doadores brasileiros, divulgada em 2025.

Presidência da República — Lei nº 13.709/2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.

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